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sábado, 26 de dezembro de 2015

VISITA DO PRESIDENTE A PAU DOS FERROS


O Perímetro Irrigado foi um programa de irrigação criado pelo governo federal, sob o comando do DNOCS (Departamento Nacional de Obras Contra a Seca). Localiza-se a 9km da sede do município de Pau dos Ferros-RN e a 2km do açude do município. Foi fundado em 1977, embora suas obras tenham sido iniciadas em 1973. (Foto acima mostra  os colonos que primeiro habitaram o Perímetro junto aos dirigentes do DNOCS).

Justamente nesse Perímetro, Pau dos Ferros teve a honra de receber um Presidente da República, que na época, era José Sarney. A visita ocorreu em 28 de outubro de 1987, o governador do estado do Rio Grande do Norte era Geraldo Melo e o prefeito de nossa cidade era José Fernandes de Melo. A visita consistia no acompanhamento das obras do Perímetro Irrigado, assim como ocorreu em outros estados do nordeste.

Na Biblioteca da Presidência da República, está disponível o discurso do presidente, por escrito, contendo 6 laudas, proferido na visita a nossa terra. Abaixo, o trecho final do discurso:


-Se eu pudesse, eu, político que gosta do povo, que sempre fui político popular, ao lado do povo, eu mergulharia, aí, no meio de vocês, brasileiras e brasileiros, para abraçar cada um, apertar a mão de cada um, como quis fazê-lo há pouco, lá na Paraíba, para dizer-lhes muito obrigado.

-Mas, não podendo fazê-lo, eu aqui, nestas palavras, entrego a todos vocês o coração do Presidente do Nordeste da Irrigação, que foi o primeiro Presidente a vir a Pau dos Ferros, e que não seja o último a ver o verde nascer no meio da seca mais desoladora da região.

Por nossas terras, as lideranças políticas e o presidente chegaram de helicóptero e foi grande o alvoroço para presenciar a vinda do presidente, muita correria, que depois viraria motivo de algazarra pela tradição oral, motivo de muitas brincadeiras, como disse um certo poeta:

Dizem quem quando chegou
o helicóptero a descer,
o povo se agoniou,
sem saber o que fazer
naquele mar de poeira
todos fizeram carreira
pensando que iam morrer.

Abaixo, o link do documento que reproduz o discurso do chefe maior de nosso país em 1987:

http://www.biblioteca.presidencia.gov.br/ex-presidentes/jose-sarney/discursos/1987/94.pdf


Por Manoel Cavalcante

Créditos à pedagoga Hortência Pessoa.



sábado, 19 de dezembro de 2015

O BARDO



José Alcigério Batista é natural de São Miguel-RN, nasceu no dia 13 de setembro de 1955. Filho de seu Alcides Batista e Dona Josélea, tem nove irmãos: 4 homens e 5 mulheres. Casou com Francisca Leite Batista, Dona Chica, -ache caro e ruim quem quiser-. Neste laço, gerou dois filhos varões. Morou em São Paulo, Brasília, Natal, Campos do Jordão, Fortaleza, Mossoró, se formou no ano de 1984 em Letras Inglês pela antiga FURN e se pós graduou em Linguagem pela UNP. Em São Paulo, no ano de 1978, foi gerente de uma loja de tecidos no Brás, em 1977, viveu ganhando alguns trocados como cuidador de um deficiente visual. É funcionário público do estado, professor de língua inglesa. Recebeu o título de cidadão pauferrense em 09 de dezembro de 2011. 


Afora tudo isso ou consoante a, eu falo de um espírito de luz chamado Léo Batista, o Bardo, o Xamã Aventureiro, o Falcão Ligeiro. Léo é o poeta das melodias, é o dono da curva das palavras, é o irmão dos sons. Pousou em nossas terras, se firmou, construiu seu clã e nos deu de presente uma obra sobre-humana e surreal. Quem nas vielas de Pau dos Ferros nunca ouviu falar no SERTÃO DE METAL, uma visão futurista, composta em meados dos anos 70, que retrata justamente a realidade que vivenciamos hoje? Os tempos do sabiá de metal mal polido... Nos anos 80 e 90, depois dos folguedos da sorveteria de Sales Correia, Leo e Círio (seu companheiro inseparável) derramaram suas liras na Praça do Pavilhão e construíam seus nomes na cultura de nossa cidade. Gravaram juntos em 1995, o disco que leva o nome dessa composição mais famosa "o sertão de metal", LP que roda nas radiolas do mundo todo e até hoje faz sucesso por todos os recantos do planeta.


Léo é místico, doce, humano e sobretudo, alma, um homem de alma, um humano interior, de fé. Além do Sertão de Metal, oração de nossas terras, Léo possui uma obra imensa e ainda inédita, privilegiados aqueles que chegaram a ouvir, numa esquina, num encontro etílico, o verbo em melodia de nosso Falcão Ligeiro. 





Como uma espécie de irmão, filho e fã de toda a sua obra, eu tenho esse privilégio de conhecer seu mundo além do Sertão de Metal, dois pontos:

Escrava de ouro, Musa linda, Cidade, Margaridas da favela, Passos de um peregrino, Passarinho de estrada, Pseudo-cidadão, Terra sem males, Pimpolho, Caminha e tantas outras que não chegaram aos ouvidos da massa, dos jovens, que é de embriagar e revoltar ao mesmo tempo, diante de tanta beleza virgem e não conhecida.     

A obra do Xamã Aventureiro não tem idade, é telúrica, é espiritual, é naturalista, um tratado de conduta humana, um templo sagrado. O que dizer da mística ATMA-LUZ, Da melodiosa e dolente VELHICE PRECOCE? Do bucólico POR FAVOR, SEU CAPITÃO? Das cômicas ASSOMBRAÇÕES ESPACIAIS? Eita, velho bardo, nós somos felizardos por sermos devotos de sua carga poética. E seu legado ecológico nas canções? Que as energias façam com que isso tudo ganhe forma de gás e esteja ao alcance da respiração de todos.

Você seria mil livros, mil postagens, por enquanto, ficaremos com essa amostra de sua passagem poética permanente, de seus trabalhos intensos. Avante mestre, chapéu na cuca, barba anarquista e revolucionária e verso na voz...

"Há de existir um lugar onde o tempo para para ver o jegue relinchar, onde o mundo é de todos nós..."

Na foto abaixo, Léo está sob os olhos de Ariano Suassuna na sua visita em nossa cidade, no ano de 2012:



Por Manoel Cavalcante

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

O MODERNISMO DE 1930, ZÉ LINS E PAU DOS FERROS



O século XX traz para a cultura ocidental um novo modo de viver e de pensar. A arte não permanece alheia a isso, haja vista a chegada do pensamento modernista. Como bem nos lembra o estudioso João Luiz Lafetá, o Modernismo nos traz pelo menos dois projetos: um estético, outro ideológico. O projeto estético, mais ligado à chamada “fase heróica” de 1922 e o ideológico ao Modernismo regionalista de 1930. Um referente à linguagem, outro às mazelas sociais do Brasil daquele tempo.

Todavia, é importante ressaltar que esses dois projetos devem ser vistos de forma dialética e não dicotômica. Os dois se completam para dar voz à riqueza da criação de nossa arte moderna. Portanto, ainda que com diferenças significantes, o Modernismo de 1930 traz marcas e percorre caminhos abertos pela primeira fase. Isto é, os aspectos do Modernismo da primeira fase que enriquece o de 1930 estão ligados ao rompimento com a linguagem arcaica, inflexível, tradicional e acadêmica que amarrava a literatura à erudição. José Lins do Rego, por exemplo, seria fortemente influenciado pela linguagem popular dos cantadores de viola, das velhas contadoras de estórias e dos cordelistas de seu tempo. Certa vez, quando questionado por que não escrevia a continuação do romance Pedra Bonita, Zé Lins responde que precisaria tornar a ler o poeta popular João Martins de Athayde para que realizasse tal feito.

Em 1953, José Lins do Rego nos presenteia com a tal continuação de Pedra Bonita, seu último romance: Cangaceiros. Era a continuidade da história da família Vieira, contada pelo jovem Antônio Bento, que perde dois de seus irmãos para o cangaço, sendo que um deles, Aparício, se torna chefe do bando, feito que aproxima Bento do bando de cangaceiros através de serviços prestados, como troca de informações, transporte de munição e até tratamento aos cabras baleados.

É justamente nessa preciosa obra do Modernismo de 30 que uma curiosa cena se passa em nossa Princesinha do Oeste, Pau dos Ferros, quando uma lavadeira de roupa conta a seguinte estória:

- Aparício chegou em Pau dos Ferros e estava na casa do prefeito, todo grande, como dono de tudo. Os cabras comiam e bebiam pelas bodegas. Pois não é que um sujeito botou-se para Aparício querendo matar o homem? Aí, menina, a coisa pegou fogo. A briga nem demorou um minuto. Aparício pulou para a rua com o sujeito e o bicho ficou estendido na calçada. Aí ele gritou para os cabras: “Vamos dar uma lição nesta cambada.” E deram mesmo. Não ficou nem uma donzela em Pau dos Ferros, comeram até uma menina de nove anos.
[...]
Dizem que Aparício pegou a mulhé do homem da mesa de renda, um tal de Feliciano, e mandou os cabras se servir da pobre, um por um. Pau dos Ferros não tem mais honra e o povo fugiu de lá. Até a feira não dá mais. (REGO, 2010, p. 48).

É importante ressaltar que essa pequena narrativa trata-se de uma obra ficcional e não possui nenhum comprometimento histórico, tais letras devem ser lidas como arte e entendidas como um privilégio, ainda que através de uma representação tão trágica.

O trecho acima, ainda que de ficção, nos permite recriar um retrato da organização social da Pau dos Ferros de Zé Lins. Iniciamos pela própria organização política, que já conta com um prefeito, cargo conferido ao chefe do executivo de uma cidade, e ainda a presença de uma “mesa de rendas”, órgão do governo que seria correspondente às agências da Receita Federal. Entretanto, apesar de ser um meio urbano, a cidade ainda possui traços rurais, como as bodegas. Dessa maneira, a cidade, como outras inseridas nesse contexto, vivia a transição lenta do rural para o urbano, conforme ocorria no século XX por essas terras de cá.

Algo que também merece destaque é o sentimento de honra que é ferido por um ato de violência. No contexto do sertão nordestino, sobretudo até o século passado, sofrer uma ação violenta é correr o risco de ser desonrado. Caso o que padece não vingue o ato, este perde a sua honra e abre margem para que seja acometido de nova agressão. Por isso a vingança é extremamente forte nesse espaço, pois é um meio de manter a honra e de impor respeito. Como o povo não pôde com o poder do autoritário rifle de Aparício, restou a desonra. As pessoas fugiram com o trauma e a vergonha da violência e até mesmo a feira, símbolo de Pau dos Ferros fora da ficção, entra em decadência.

Não há dúvidas da relevância do Modernismo de 1930 para o Nordeste brasileiro, sobretudo para o seu semiárido. Pois, através dele, a arte deixa de ser centralizada apenas no centro-sul do país e avança às regiões tidas como periféricas. Nessa arte, ganharam espaço o sertanejo simples, a seca, as instituições autoritárias e a briga por poder que até hoje compõe nosso cenário. Pau dos Ferros, portanto, surge como espaço nesse romance graças ao fato de que o Modernismo de 30 dá voz às paisagens interioranas. O texto de Zé Lins, ainda que do século passado, pode permanecer atual, a depender da leitura que se faça dele e de nossa sociedade.


Netanias Mateus de Souza Castro é mestrando em Letras pelo PPGL/UERN na linha de pesquisa “Texto literário, crítica e cultura” e cabra macho.


sábado, 28 de novembro de 2015

O BAR POLAR


E lá se iam os meados da década de 60... Eis o Bar Polar. Ponto de encontro e de diversão dos pauferrenses daquela época. Tempo puro, no qual não existiam os adventos da tecnologia e do consumismo, as pessoas priorizavam e tinham mais contatos humanos, afetuosos, se havia o costume de presentear amigos e pessoas queridas com foto e mimos simples, era uma época de ternura, de candidez. O estabelecimento se localizava onde hoje é a loja Mart Modas, na Rua 7 de Setembro, em frente à receita federal ou, para ser mais saudoso, de fronte ao -Prédio do Fomento-. Na imagem acima, flagra-se a construção de uma barreira para não entrar a água do Rio Apodi no saudoso bar, ante a histórica cheia de 1967.

O Bar Polar era de propriedade de Erasmo Castro, muito querido pelos seus fregueses, todos se dirigiam a ele com a alcunha carinhosa de -Tio Erasmo-, assim conta um dos fregueses da época, seu Antônio Conrado. A fotografia abaixo mostra seu Antônio sendo o moço de branco. Os demias da foto são Nicodemos Fontes, Zé Sávio, Carlos Alberto e o lá de trás, com o litro na mão, é Baia. Tio Erasmo, como era chamado por todos, aparece em pé, porte alto, meio calvo, camisa desabotoada perto da gola, olhar sério e certeiro. 


Fregueses contam que ele se nunca negou a vender fiado, havia um laço de confiança... Existiam homens de palavra. Não era o tempo que falou a canção de Zé Geraldo: -da força falsa do cartão de crédito ao invés de um fio de bigode-. O caráter era a moeda vigente.

A família sempre o ajudava: sua esposa Chiquinha Pereira (in memorian), sua irmã Eurides - Lodinha -  e suas filhas Ilza e Isabel. Lázaro de Preta (in memorian), era outro que sempre o auxiliava nas lutas diárias do ponto comercial e de lazer. As meninas sempre serviam café aos presentes, o que na época não era coisa abominável, tampouco para elas que se emanciparam e formaram suas famílias com belas e saudosas recordações daquele tempo, dos sábados de feira nos quais o movimento era intenso. A vida era simples, barata e tão boa que ninguém via o tempo passar.


Tio Erasmo fechou seu bar em 1972, quando foi residir em Mossoró na companhia da esposa e das filhas, mas deixou sua marca cultural na cidade, está na mente de muitos pauferrenses que se confraternizaram, jogaram seus galanteios, contaram suas anedotas, ouviram suas canções prediletas e viveram uma era de pureza naquele querido estabelecimento. Viajou para fora do combinado, como diz Rolando Boldrin, no ano de 1997 e foi sepultado em Mossoró-RN. Nasceu num dia 2, morreu num dia 3 e foi sepultado num dia 4, sequência mística e divina para um homem singular. E quer mais mistério? Num dia de Santa Luzia, a padroeira da visão, Tio Erasmo lesionou um olho e perdeu por completo a visão dele, o que lhe fez usar uma prótese ocular, -um olho de vidro- como todos que o conheciam chamavam. Era e ainda é, bastante raro uma pessoa usar esse tipo de prótese, porém ele usava e chamava a atenção de todos por isso. Ademais, nossa cultura agradece toda a contribuição dada por sua existência valiosa e peculiar. Viva! Salve, salve nossas memórias!


Por Manoel Cavalcante

Créditos a Isabel Diógenes, filha de Erasmo Castro, prova viva e ocular de todas as imagens e lembranças.


sábado, 21 de novembro de 2015

POETA CHICO MONTEIRO



Francisco Monteiro de Oliveira, Chico Monteiro, poeta nato, repentista tarimbado de sua geração. Nasceu em Catolé do Rocha-PB, no dia 06 de agosto de 1906 e faleceu no dia 21 de agosto de 1981, aos 75 anos, vítima de problemas cardíacos. Foi radicado em Pilões-RN, onde teve a maioria de seus filhos e por último, em Pau dos Ferros. Foi pai de 10 filhos, fruto do matrimônio com Maria das Neves Fontes, a querida Dona Nevinha. 

Cantador repentista, Chico Monteiro mesmo depois de muitos anos de sua morte, ainda é aclamado pelos poetas Brasil a fora. Sua casa, em Pau dos Ferros, era pousada certa de vários gênios da profissão como os Irmãos Batistas - Dimas, Otacílio e Lourival - Chico Pedra, Moacir Laurentino, Inocêncio Gato etc. Conta-se que ele chegou a hospedar de 30 a 40 cantadores em sua casa na esquina da rua 13 de Maio com a Joaquim Torquato e em mais outras casas que ele possuía na rua 13 de maio. Os poetas vinham em lombo de animais e depois passaram a vir de misto, meio de transporte usado naquela época. Abaixo, foto ilustrativa do misto:


Na boca do povo e no imaginário popular, ainda correm seus versos... Um deles é a famosa estrofe da lagartixa, mas que é bastante atribuída, segundo a bibliografia, ao antológico cantador natural de Luís Gomes-RN, Ercílio Pinheiro. No entanto, segundo muitos apologistas de nossa cidade, a estrofe pertence ao velho Chico Monteiro e é justamente esse um dos problemas de nossa literatura, o registro, a comprovação, os cordéis de antigamente sofriam bastante com isso, até o Pavão Misterioso foi atribuído a mais de um autor, hoje ainda existe esse tipo de querela, porém em menor escala, uma vez que há muitos meios de registro de autoria. Todavia, deixemos o blablabla de lado e vamos a estrofe... No calor do improviso e da genialidade, em uma certa cantoria numa residência, supostamente aqui em nossa cidade, caiu uma lagartixa do teto da casa e Chico lapidou a seguinte joia:

Caiu um bicho da telha
Por certo é uma lagartixa,
O senhor dono da casa
Pegue o pau e mate a bicha
Que é carne que não se come
E couro que não se espicha.

Existem variações nos primeiros versos difundidos no meio oral, mas a essência do improviso é o que não se pode passar batido. Outra estrofe famosa, essa não se tem dúvida de sua autoria, é a que fala da cidade de São Francisco do Oeste-RN. Numa viagem, uma excursão de cantadores, vinham em debate poético, dizendo seus versos e Chico Monteiro foi insultado e desafiado em versos por um cantador  de lá quando chegou na referida cidade dando sua ácida resposta:

O nome dessa cidade
É São Francisco do Oeste
Faz 45 anos
Que eu conheço essa peste
Tem nome de São Francisco,
Mas num tem nada que preste.

Lembrando que o poeta não tinha nem construía nenhum sentimento de ojeriza contra a pequena e hospitaleira cidade do Alto Oeste Potiguar, tudo era feito no calor do improviso, para arrancar aplausos dos presentes, e as ofensas disparadas nesse embate a ferro e fogo, munidas de palavra e genialidade, findavam no parar do toque das cordas da viola.

Chico Monteiro, como quase todos os outros, é mais um gênio esquecido, e muito mais por não ter deixado nada escrito nem registrado, todos os seus versos pulam de boca em boca na tradição oral. Foi pescador, foi poeta, conseguiu capturar com as mais variadas iscas, peixes e estrofes que lhe garantiram o pão e o colocaram na mente do povo. Um salve para os que o festejam. Viva ao mestre Chico Monteiro.


Por Manoel Cavalcante



quarta-feira, 11 de novembro de 2015

O CEGO ADERALDO E PAU DOS FERROS


Aderaldo Ferreira de Araújo, o Cego Aderaldo, foi um dos poetas mais populares do nordeste. Natural do Crato-CE, do dia 24 de junho de 1878, aos 18 anos perdeu a visão após sentir forte dor nos olhos, e nesse ínterim, enxergou a solução para sua dor: estava na poesia. Ganhou uma viola, aprendeu a tocar, tempos depois aprendeu a tocar rabeca. Perdeu a visão para ganhar o nordeste e ser um dos maiores poetas do Brasil.

Em Pau dos Ferros, veio mais de uma vez, por volta de 1946 e 1947, mesmo na época da convalescença poética, em que ele não aceitava mais desafios e cantava mais para entreter a alma. Estava com quase 70 anos e não possuía o raciocínio privilegiado como antes, preferia fazer apresentações sem as fervorosas pelejas que lhe deram nome. Sua rota era bastante conhecida, vinha de Sousa-PB e ia - depois - para Iracema-CE. A voz do povo repetia que ele dizia que Pau dos Ferros era cercada por serras e que, como não gostava de subir morros, sempre escolhia percorrer esse caminho.

Suas cantorias sempre ocorriam no pavilhão interno do mercado público municipal, o famosso barracão, aliás, por lá aconteciam festejos, bailes, festas de casamento e outras solenidades. Na época não existiam clubes como hoje e os espaços que existiam eram considerados pequenos para esses tipos de solenidades, comemorações ou reuniões.

O Cego Aderaldo sempre repetia em seus versos e cantorias que adorava Pau dos Ferros. Em 1947, fez sua última apresentação em nossas terras, ficou hospedado no Grande Hotel, pousada famosa, nome que não fugia à regra em muitas cidades, inclusive Mossoró e Natal. Era localizado na rua - conhecida hoje - como da Independência, esquina com a rua Quintino Bocaiuva. Geralmente o poeta ficava até sábado para vender seus folhetos na feira, que por sua vez, naquela época só acontecia nos sábados. Sempre andava acompanhado com um mulato, alto, forte, que era quem dirigia seu jeep americano, mas - também - fazia as honras de trovador, pois quando não aparecia ninguém para desafiar o Cego, ele quem assumia a patente e o Cego Aderaldo não perdoava e "tirava o couro dele". O mulato tinha o cabelo estirado, era alto, forte e bonito, e isso era suficiente para as zombarias do Cego, mais ou menos o que cantou no desafio com Zé Pretinho do Tucum. Conta-se que todos os presentes caíam na risada e até o mulato, também, parava a peleja em crises de risos. Diz-se também, que o jeep era presente de prefeitura de Quixadá, uma vez que o Cego já estava cansado de viajar no lombo dos cavalos, aliás, os animais eram o meio de transporte mais sofisticado que os poetas tinham à disposição para adentrar nas entranhas do nordeste vendendo seus versos à troca do pão de cada dia. O Cego era elegante e sempre se apresentava bem vestido, de paletó, gravata e tudo o mais.


Por Pau dos Ferros, era sempre o prefeito que pagava sua estadia no Grande Hotel, além da estadia do mulato e dois filhos que sempre o acompanhavam nas apresentações, vendiam os folhetos e passavam o chapéu para arrecadar as gorjetas. Na época, o prefeito era Licurgo Ferreira Nunes, homem probo que sempre apoiou esses eventos na cidade e era apaixonado por poetas e trovadores que viessem encher a cidade de beleza e graça.

Cego Aderaldo nunca casou, dizia não ter a mínima vontade, mas criou 24 crianças, dando-lhes o melhor na vida e na educação e sempre nas suas viagens levava dois ou mais meninos para acompanhá-lo. Cantou para Padre Cícero e Lampião, viveu em cidades no Pará e no Ceará, teve uma bodega, faliu. Morreu em 29 de junho de 1967, em Fortaleza, aos 89 anos, quando - ainda - era convidado para dizer seus repentes, principalmente em festas da igreja católica. Em Quixadá-CE, onde viveu parte de sua vida, possui um monumento em sua homenagem, dos mais legítimos pela perfeição de sua figura.


Por Manoel Cavalcante

Créditos a João Escolástico Bezerra Filho, presente na última apresentação do Cego Aderaldo em Pau dos Ferros no ano de 1947.



sábado, 7 de novembro de 2015

UMA CASA CENTENÁRIA


Há muito, os defensores da cultura relutam, reclamam e desabafam contra o descaso em desfavor da preservação de nossas memórias e nossas raízes. O tombamento de prédios históricos, arquiteturas antigas e edificações públicas, é grito perene na garganta dos patriotas entusiasmados. Consoante a isso, cada relato de longevidade e preservação de nossas raízes é motivo para muita comemoração. Eis que surge uma curta metragem de uma longa história nas brenhas do Encanto-RN, antigo Joaquim Correia, terra fértil em que Calazans Fernandes muito bem descreve em seu -O Guerreiro do Yaco, dois pontos:

"A casa foi construída em 1915 para ser o lar de Raimundo de Souza Nunes e Maria do Amor Divino, casal de agricultores, no Povoado de Várzea Nova, atualmente Município de Encanto - RN, entretanto, na época, pertencia a Pau dos Ferros. O terreno foi conseguido de herança dos pais de Raimundo, que deixaram um grande terreno para os filhos, a parte que tocou a Raimundo ele construiu sua casa. A construção teve início com três grandes vãos, que correspondiam a uma sala, um quarto e a cozinha, a construção foi empreendida pelo proprietário, juntamente com os irmãos, ao final do plano inicial da casa, notaram que ainda havia sobrado vários tijolos, de modo que construíram mais um vão, no caso, outro quarto. O casamento foi no ano de 1917 e lá foram morar e construir a família, tiveram 16 filhos ao todo, morreram 7 crianças destas 16, também houveram três abortos. A vida desta família foi bastante sofrida para construir o patrimônio e herança, Raimundo construiu ainda um açude nas proximidades da casa. Foi permitido a todos os filhos a educação, mesmo com as dificuldades da época, bem como foi ensinado desde cedo o trabalho doméstico e na agricultura e a certeza de que nada na vida é conquistado sem o trabalho. Em 1945 foi construído o alpendre que circunda a casa, desta vez com ajuda dos filhos. Também a devoção a Nossa Senhora das Graças no Povoado de Várzea Nova teve início nesta família, onde a caçula, Maria das Graças Souza, hoje com 74 anos passou por sérios problemas de saúde na infância, na qual uma dor ciática aguda culminou na perda de um pedaço de osso da sua perna, deixando-a sem andar, a Sra. Maria, sua mãe, empreendeu orações e promessas e escreveu uma carta a um Padre de Recife, conhecido na época, Pe. José Pinto que orientou-a a rezar a novena a Nossa Senhora das Graças, e assim, alcançou o milagre pedido que foi que sua filha voltasse a andar, recobrando a saúde, desde então, são realizadas as novenas e a devoção à santa milagrosa se difundiu no povoado onde foi construída a capela. Hoje, Maria das Graças vive na casa, cujo centenário se fez, não casou, nem teve filhos, mas criou duas sobrinhas que lhe são como filhas e reconta a história de sua família que é um patrimônio a ser lembrado com muito carinho, ela relembra um trecho da música de Pe. Zezinho que traz grandes lembranças sobre a época de seus pais e sua história nesta casa: "Faltava tudo mas a gente nem ligava, o importante não faltava, um sorriso e um olhar"

Daqui sempre irei lembrar
Eterna casinha branca
Aonde fiz minha história
Desde o tempo de criança
Uma vida em tão belo lar
Um casarão de lembranças
Que sempre irei preservar

Sobre o tempo não há controle
Mas a história é preservada
A família construída
Vai honrar esta morada
Local de carinho e amor
Hoje está sendo lembrada
São cem anos de louvor."

Por Magna Fernandes - Reside na casa e é Tataraneta de Raimundo e Maria.

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Fecham-se as Cortinas

Fecham-se as cortinas do último ato da vida de Israel Vianney.Cheguei agora do seu sepultamento.muita gente se misturava com lágrimas e aplausos. A tristeza tomou conta das faces de todos,mas quando se falava na vida dele só era recordações de alegria.Deus tome conta dele e lhe der muita paz,como aos seus familiares.Deixou uma lacuna impreenchível.Um vazio sem horizonte uma saudade infinita.Adeus amigo,agora o tempo se encarregará de nos acostumarmos sem você, beijos.



quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Homenagem - Toinho Dutra

Hoje meu corpo todo chora por você.Na outra vez eu corri pra perto de você e ajudei no que pude,hoje não deu tempo,vinha de Natal quando me telefonaram e disseram o ocorrido.O que senti é inexplicável.Tenho certeza amigo,que em relação a nossa amizade não ficou nada que a gente não tenha dito um ao outro.Você foi querido por todos nós,as risadas dos nossos encontro, hoje foram substituídas pelas minhas lágrimas.Adeus querido,quando se falar em alegria,cultura e boa companhia,você vai ser sempre lembrado.Nada hoje é maior que minha tristeza,beijos

Toinho Dutra


Homenagem - Paula Jordana

Sempre vou me lembrar de quando você chegava no meu trabalho, com aquele sorriso e alegria, quando entrava na porta já ia dizendo Paulinha amor minha fadinha, altas risadas com VC , tive a oportunidade de trabalhar com VC, vá em paz amigo, que VC encontre a luz e que Deus te ilumine. Israel Vianney, ‪#‎LUTO‬

Paula Jordana


quinta-feira, 29 de outubro de 2015

SÍTIO ARQUEOLÓGICO DE SERRINHA DOS CAMPOS


Arqueologia e mirantes de tirar o fôlego.

A Serrinha dos Campos fica na zona rural do município de Francisco Dantas/RN e é um local de difícil acesso, sendo essa uma das causas do baixo movimento turístico. O lugar possui uma comunidade cuja sobrevivência se baseia na agricultura familiar. São inúmeros os mirantes de onde se pode contemplar o vale do rio Apodi. Outra particularidade do local é um sítio arqueológico com gravuras rupestres. Descobertas em meados do século XX, as gravuras foram reavivadas com tinta branca pela população local, que desconhecia a real importância da preservação das gravuras.


quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Mossoroense será nova cantora da banda Calypso


Mossoró Hoje – A cantora mossoroense Thábata Mendes é a nova vocalista da banda Calypso. A informação foi confirmada pelo jornal Extra, do Globo. Segundo o jornal, a cantora será apresentada na próxima semana à imprensa. O material de divulgação está sendo produzido.

O Extra informa ainda que a mossoroense já se prepara para cantar nos palcos com a banda paraense. Thábata Medes tem 28 anos, começou sua carreira artística aos 9 anos. A família é circense e a menina se apresentada nos picadeiros como malabarista e também palhaça.


terça-feira, 27 de outubro de 2015

A Grande Seca do Nordeste

A Grande Seca do Nordeste
Por Talita Lopes Cavalcante 

Foto de uma das vítimas da Grande Seca, Ceará, 1878. Foto de Joaquim Antônio Correia, “Vítimas da Grande Seca”, Albúmen, Carte de Visite, 9 X 5,6 cm, Ceará, CA. 1878. Acervo da Fundação Biblioteca Nacional – Brasil.

Das grandes secas que assolaram o Brasil, uma das mais graves e lembradas foi aquela que compreendeu os anos de 1877 à 1879, ficando conhecida como a grande seca do Nordeste. Foram quase três anos seguidos sem chuvas, com perda de plantações, mortes de rebanhos e miséria extrema. A situação foi tão desesperadora, que famílias inteiras se viram obrigadas a migrar para outros estados, promovendo uma onda de imigrações.

O cenário ficou cada vez mais caótico, principalmente quando os retirantes chegaram em outras cidades e estados. Devido à miséria extrema das pessoas que chegavam, os moradores locais temiam saques no comércio e armazéns. Além disso, as cidades para as quais as vítimas da seca se dirigiam começaram a ficar cada vez mais apinhadas de flagelados. Fortaleza, por exemplo, converteu-se na capital do desespero. De 21 mil habitantes pelo censo de 1872 passaram a ter 130 mil.

Somando-se ao quadro caótico, os rebanhos de animais sobreviventes sucumbiram diante da ação de zoonoses, furtos, fome e sede. A flora e a fauna da região praticamente desapareceram. Por fim, para completar o quadro de tragédia, houve um surto de varíola, dizimando milhares de pessoas. Finalmente o governo imperial enviou ao Nordeste uma comissão de engenheiros para a perfuração de poços, construção de estradas de ferro e armazenamentos de água, para assim resolver o grande problema da seca.

Vítimas das secas de 1877/1878, no Ceará – Brasil. 
Foto: autor desconhecido, Biblioteca Nacional.

Curiosidade:

Calcula-se que 500 mil pessoas morreram por causa da seca, em que o Estado mais atingido foi Ceará. O imperador dom Pedro II foi ao Nordeste e prometeu vender “até a última joia da Coroa” para amenizar o sofrimento dos súditos da região. Não vendeu, porém enviou engenheiros para a construção de poços.

Alguns anos depois da primeira grande seca no século XIX, em 1915 um novo episódio assolou o sertão nordestino. Mais uma vez, a nova seca fez com que diversos nordestinos migrassem para as grandes cidades, porém, ao contrário do primeiro episódio, o governo cearense resolveu se precaver de uma maneira desumana. Desta feita, o governo criou os primeiros currais humanos, campos de concentração em regiões separadas por arames farpados e vigiadas 24 horas por dia por soldados para confinar as almas nordestinas retirantes castigadas pela seca.

Notícia sobre o Campo de Concentração dos Flagelados, publicada no Jornal O POVO, em 16/04/1932.

A oeste da cidade de Fortaleza foi erguido, então, na região alagadiça da atual Otávio Bonfim, o primeiro campo de concentração brasileiro. Ali ficaram confinadas cerca de 8 mil pessoas com alimentação e água controladas e vigiadas pelos soldados do Exército. Naquele mesmo ano de 1915, após incentivos para que os retirantes migrassem para a Amazônia, o curral humano foi desativado.

Cerca de 17 anos mais tarde, em 1932, foi a vez de reabrir o campo de concentração de Otávio Bonfim e criar novos currais humanos. Naquele ano, outra grande seca castigou novamente o sertão nordestino, fazendo com que, mais uma vez, milhares migrassem para os grandes centros urbanos. Após dezessete anos, nem o governo federal, nem os governos estaduais haviam se precavido para diminuir os efeitos da seca e a solução, novamente desumana, passou a ser a criação e ampliação dos campos de concentração nordestinos.

Vítimas da seca. Crianças e adultos jazem ao lado da linha férrea que levava para o Campo de concentração de Senador Pompeu. De forma assustadoramente parecida, as cenas brasileiras dos currais humanos lembravam bastante os campos de concentração nazistas.

Pela segunda vez, foram erguidas regiões cercadas por arames farpados e vigiadas diariamente por soldados para confinar os nordestinos afetados pela seca. Corpos magros, de cabeças raspadas e numeradas se apinhavam aos montes dentro dos cercados de Senador Pompeu, Ipu, Quixeramobim, Cariús, Crato (ou Buriti, por onde passaram mais de 65 mil pessoas) e o já conhecido Otávio Bonfim, os maiores currais humanos instalados no Brasil para conter a massa castigada pela seca dos anos de 1915 e 1932.

Poema “Campos de Concentração no Ceará”, por Henrique César Pinheiro.

No Estado do Ceará
A exemplo do alemão
Houve por aqui também
Campo de concentração
Lá era pra matar judeu
Aqui o povo do sertão.

Na seca de trinta e dois
Criamos uns sete currais
Para evitar que famintos
Criassem problemas sociais
E pudessem invadir
Na capital seus mananciais.

Currais foram construídos
Em Senador Pompeu, Ipu,
Quixeramobim e Crato,
Fortaleza e Cariús.
Fortaleza teve dois
Otávio Bonfim, Pirambu.

Pessoas foram confinadas
Como bando de animais.
Tinha a cabeça raspada
Sacos de açúcar, jornais
Era o que lhes serviam
Como vestes mais usuais

Sem nome, ou identidade,
Chamados por numerais.
Desta maneira estavam
Registrados nos anais.
Só se comia farinha,
Rapadura nos currais.

Toda essa gente foi presa
Sem ter crime praticado
E para isto bastava
Somente estar esfomeado.
Pedir prato de comido
Que seria logo enjaulado.

E controlados por senhas,
Pelas forças policiais.
Quem entrava não saía,
Senão pros seus funerais.
Sessenta mil lá morreram.
Nos registros oficiais.

Para aqueles locais, todas
Pessoas foram atraídas.
Com promessas que seriam
por médicos assistidas,
Que teriam segurança
E fartura de comidas

Experiência que houve
Somente aqui no Ceará.
Que se iniciou em quinze
Naquela seca de torrar
Depois disso os alemães
Trataram de aperfeiçoar.

Alguns campos projetados
Para abrigar duas mil pessoas
Dezoito mil chegou alojar.
Presos por vilões e viloas,
Felizes os governantes
Ainda cantavam suas loas.

Em Ipu todos os dias
Morriam de sete a oito.
A maioria era de fome
E até por ser afoito,
Nas tentativas de fugas,
Pro que não havia acoito.

Nas décadas posteriores,
Pra mudar essa imagem,
governos criaram albergues
para evitar sacanagem,
mesmo assim pouco funcionou
pois sempre há malandragem.

E o povo nordestino
ainda de pires na mão,
espera de todos governos
pro problema solução.
Agora estamos na briga
pela tal transposição.

Ceará de Terra da Luz
É chamado no Brasil.
Foi nosso primeiro estado
Que escravatura aboliu
Pra isso não foi necessário
Nem mesmo usar um fuzil.

Mas a geração atual
Tem que redimir o erro
De governantes passados.
Não permitir o desterro
De seus filhos pra terra alheia
e muitos acham o enterro.

HENRIQUE CÉSAR PINHEIRO
FORTALEZA/MARÇO/2008

Henrique César

Referências:
– “A Seca de 1877 – 1879“, Fátima Garcia, Fortaleza em Fotos.
– AZEVEDO, Miguel Ângelo. Cronologia Ilustrada de Fortaleza.
– KOSSOY, Boris. Um olhar sobre o Brasil: A fotografia na construção da imagem da nação (1833 – 2003). 1° edição. São Paulo: Fundación Mapfre e Editora Objetiva, 2012. p. 94.
– LESSA, Letícia. Currais de gente no Ceará.
– “Currais Humanos“. Diário do Nordeste
– SÁ, Chico. “Ceará: Nos campos da seca“. Revista Aventuras na História. Editora Abril: 2005.
– Arquivo “O Povo no campo de concentração“. 1932.

A chacina do Sítio Caldeirão

Um Sopro de Liberdade Beato Lourenço 
A chacina do Sítio Caldeirão 


Em 11 de maio de 1937, um ruído no céu da chapada do Araripe assustou os camponeses. Com medo, eles tentavam se esconder entre as árvores enquanto máquinas voadoras deslizavam pelos ares daquela região do Cariri, no sul do Ceará. Homens, mulheres e crianças fugiam de algo que, com certeza, viam pela primeira vez. O desespero foi ainda maior quando os aviões da Força Áerea Brasileira (FAB) começaram a metralhar. Muitos ali devem ter sussurrado o derradeiro Pai-Nosso. Outros nem tiveram tempo para tanto. 

Quarenta anos após o massacre dos sertanejos liderados por Antonio Conselheiro, em Canudos, na Bahia, e 20 anos depois da Guerra do Contestado, episódio com desfecho semelhante ocorrido nos estados do Paraná e de Santa Catarina, as tropas de diferentes esferas do poder público novamente uniam forças para abater humildes agricultores brasileiros. Desta vez as vítimas pertenciam à comunidade do sítio Caldeirão, cujo líder era o beato José Lourenço. 

Naquele dia, a polícia militar do Ceará e os aviões enviados pelo Ministério da Guerra exterminaram nordestinos religiosos e pacíficos que por dez anos tinham buscado apenas uma forma de sobreviver às mazelas da vida sertaneja: seca, fome, coronelialismo... Passadas aproximadamente sete décadas de quase completo silêncio, o Conselho Estadual de Preservação do Patrimônio Cultural do Ceará (Coepa) tombou, em 21 de março de 2007, uma área de 60 hectares pertencente ao núcleo do que um dia foi o sítio Caldeirão. Com isso, o governo estadual tenta corrigir um erro histórico, reconhecendo a importância do episódio em que migrantes, principalmente do Rio Grande do norte, viveram uma utopia de igualdade e auto-suficiência baseada na fé cristã. A medida, porém, não pode reparar a morte dos 700 (400, segundo dados oficiais) seguidores de José Lourenço, discípulo do padre Cícero. Como tudo iniciou

Longe do litoral nordestino, um emaranhado de crenças – cristãs e pagãs – caracterizava a religiosidade popular das terras secas nas primeiras décadas do século 20. Sem contar com assistência do Estado e da Igreja para enfrentar as dificuldades de sobrevivência, os sertanejos tinham poucas opções, como o cangaço, o trabalho semi-escravo nos latifúndios dos coronéis ou o misticismo. Assim, Virgolino Ferreira da Silva se tornou o “Lampião” e Antônio Vicente Mendes Maciel, o “Conselheiro”. 

A alternativa da fé era encabeçada por profetas populares, que viam a miséria como um “castigo de Deus” e encorajavam a prática de penitências como forma de obter a salvação. Para eles, as mazelas do nordeste eram sinais de que o fim do mundo estava próximo e, portanto, não tardaria a grande viagem ao paraíso divino. 

Quando deixou seu lar para trabalhar em fazendas de gado próximas à sua cidade, no estado de Paraíba, José Lourenço Gomes da Silva era ainda jovem. Ao retornar para casa, após anos de ausência, soube que seus pais haviam mudado para Juazeiro do Norte, no Ceará – lugar que se tornara um pólo de atração devido à fama do padre Cícero. 

Em 1890, já novamente ao lado de sua família, José Lourenço acabou conquistando a amizade do famoso sacerdote. Depois de viver alguns anos nas proximidades de Juazeiro e de integrar algumas seitas de penitentes – pessoas que rezavam em cemitérios pelas almas do purgatório e que praticavam autoflagelação para se purificar de pecados -, o paraibano arrendou o sítio Baixa Dantas, onde formou uma comunidade. De 1894 a 1926, ali foi desenvolvida sua primeira experiência de trabalho coletivo igualitário. Enxada na mão, José Lourenço e seus companheiros enfrentaram o desafio imposto pelo terreno pedregoso e passaram a cultivar frutas, cereais, algodão e hortaliças. A comunidade crescia à medida que muitas famílias chegavam a Juazeiro – a “meca sertaneja” – sem ter trabalho ou moradia e eram encaminhadas pelo padre Cícero aos cuidados do beato. 

A perseguição começa aos poucos... 

Apesar dos progressos no Baixa Dantas, a vida dos moradores do lugar não foi isenta de percalços. Em 1921, surgiu o boato de que o boi doado pelo padre Cícero para melhorar a raça do gado local estava sendo adorado pela comunidade. Floro Bartholomeu, chefe militar de Juazeiro, prendeu José Lourenço por 18 dias e matou o boi, num ato denominado por ele de “combate ao fanatismo”. Anos depois, o beato enfrentaria outra situação intrincada. O sítio em que a comunidade vivia foi vendido, e o novo proprietário expulsou os camponeses sem qualquer indenização. 

Diante desse problema, o padre Cícero encaminhou José Lourenço e seus seguidores à sua fazenda Caldeirão dos Jesuítas. A aridez do lugar, limitado ao norte pela caatinga e ao sul pela floresta do Araripe, não desanimou o hábil grupo de lavradores que havia trabalhado por 32 anos no Baixa Dantas. Tocado como um projeto coletivo, logo o Caldeirão começou a se transformar. 

Famílias de todo o nordeste, a maioria proveniente do Rio Grande do Norte, passaram a viver de trabalho e oração naquele pequeno terreno de 500 hectares no interior do Ceará, que chegou a comportar 2 mil pessoas. Ali tudo era feito em sistema de mutirão, e imperava a cooperação. As obrigações eram divididas e os benefícios distribuídos conforme as necessidades de cada um. 

Sem coronéis para explorar a mão-de-obra, os camponeses experimentaram sopros de liberdade. A paraibana Maria Inácia tinha 10 anos quando morou no Caldeirão, lugar que recorda com um olhar saudoso: ”Era o mesmo que um céu aberto. Logo que amanhecia, meu padrinho Lourenço era o primeiro a sair para a lida. Nós tomávamos café ali mesmo, na roça. Às 9 horas vinha uma carga de rapadura para merendar, e às 11 chegavam as cozinheiras com o almoço. Na roça, tudo o que se planta, dá...e lá a gente plantava” , lembra enquanto mostra orgulhosa as fotos dos “padrinhos” Cícero e José Lourenço, penduradas na parede da sala. Um sopro de liberdade acaricia os infelizes

Relatos como o de Maria Inácia são freqüentes entre antigos membros da irmandade formada no Caldeirão. Todavia, essa memória positiva só é possível porque houve um grande empenho no passado. Após os primeiros anos de adaptação, as atividades foram diversificadas e a comunidade caminhou para a auto-suficiência, produzindo quase tudo de que precisava: desde roupas e sabão até panelas, copos e baldes. Para tanto, os artesãos, carpinteiros e ferreiros utilizavam matéria-prima local. Os tecidos, por exemplo, eram feitos com algodão cultivado na própria fazenda. O que não conseguiam obter ali era comprado nas cidades próximas. 

Para os membros da comunidade, era importante que houvesse uma igreja onde pudessem praticar a religião tradicional. Apesar de nunca terem recebido a visita de um sacerdote, ainda que tivesse sido solicitado, no começo da década de 1930 um mestre-de-obras foi convidado a ajudar na construção da Capela de Santo Inácio de Loyola, na parte central do Caldeirão. A expulsão dos camponeses, porém, ocorrida cinco anos depois, impediu que a obra fosse concluída. Hoje, restaurada pela prefeitura do Crato, a igrejinha é um dos principais marcos históricos do sítio. Buscando abrigo no Caldeirão

Dentre as virtudes da comunidade do Caldeirão, também conhecida como Irmandade de Santa Cruz, a caridade sobressaiu durante a seca de 1932. Constantes no semi-árido nordestino, duas grandes estiagens forçaram os sertanejos a migrar para o litoral nas primeiras décadas do século passado. Para controlar a “invasão de flagelados” na de 1915, o governo do Ceará construiu o Campo de Refugiados do Alagadiço, onde uma epidemia de varíola matou boa parte dos reclusos. Em 1932, com a intenção de manter os retirantes longe de Fortaleza, os órgãos públicos intensificaram as medidas de contenção. Assim, ergueram sete campos de concentração – ou “currais”, na linguagem popular – distribuídos pelas linhas férreas do estado. 

Enquanto os dois campos próximos da capital reuniram cerca de 5,5 mil pessoas, o Buriti, no Crato, que tinha capacidade para no máximo 5 mil, aglutinou por volta de 18 mil. Segundo a historiadora Rosângela Martins, durante a seca de 1932 os refugiados de Buriti foram vigiados rigorosamente por sentinelas. Havia ali até mesmo uma prisão interna para os desobedientes. Por causa da desnutrição e de doenças, “morria gente todos os dias, e um caminhão passava recolhendo os corpos no final da tarde para jogá-los em valas na parte alta do campo”, afirmava Rosângela. 

Alguns retirantes tiveram sorte e conseguiram driblar o Campo de Buriti e chegar até o Caldeirão, onde as atividades corriam normalmente, já que mesmo nos anos de estiagem não faltava comida. José Lourenço solidarizou-se com os sertanejos e integrou à sua comunidade pelo menos 500 pessoas que pediram auxílio. Exemplo ecológico

O termo “caldeirão”, antes de dar nome ao sítio que abrigou a irmandade liderada pelo beato José Lourenço, já designava uma falha geológica formada por pedras que se enchia de água do riacho que por ali passava. Essa estrutura natural foi muito importante para o desenvolvimento da comunidade, porque a água ficava acumulada no “caldeirão” mesmo em tempos de seca. 

O clima na região do Cariri é semi-árido, com chuvas concentradas nos quatro primeiros meses do ano. Depois desse curto período, nem uma gota cai do céu. Por isso o desafio maior para o pessoal do sítio era irrigar as plantações, uma vez que o solo não possibilitava a retenção de água. 

“Como é possível sustentar toda uma comunidade dependendo de um solo que tem restrições agrícolas ? O grande mérito do beato foi exatamente este: ele soube utilizar os recursos e os ecossistemas do semi-árido”, afirma o geógrafo Arlindo Siebra. Além do modus vivendi igualitário, o Caldeirão foi um exemplo ecológico para o nordeste. Segundo Siebra, a comunidade construiu várias microbarragens e dois açudes. Faziam também um tipo de cisterna, que cobriam para evitar a evaporação, armazenando a água no subsolo. 

Outra característica importante frisada por Siebra era o não-desmatamento da “coroa da serra” – como são chamadas as partes mais altas da fazenda. Normalmente os agricultores trabalham com rotação de culturas, ou seja, queimam a vegetação para adubar o solo e depois plantam durante cerca de três anos. Posteriormente, abandonam a área – deixando a vegetação brotar de novo, o que chamam de “encapoeiramento” – para repetir o processo após três ou cinco anos. A falta de espaço, porém, impedia José Lourenço de fazer as rotações. 

Segundo Siebra, o beato “só plantava abaixo da “coroa da serra”, e apenas em um trecho por ano, passando depois para outro. Como a cobertura vegetal da coroa permanecia intacta, quando chovia as sementes eram dispersadas de cima para baixo. Dessa maneira, utilizando a força da gravidade, a área encapoeirava mais rápido que um terreno plano”. Com esse manejo agrícola, somado à criação de peixes e de gado, as quase 2 mil bocas da irmandade não sentiam falta de comida. Expulsão pela ganância dos 
Salesianos e maldade dos militares

Se no Baixa Dantas os camponeses perderam o direito à terra e tiveram de sair às pressas, no Caldeirão não foi diferente. Aliás, pior. José Lourenço não era considerado pelas elites do Ceará um simples beato analfabeto e inofensivo, mas um perigoso líder capaz de articular grandes levantes contra a ordem pública. O principal problema apontado era a organização da comunidade, que as oligarquias tachavam de comunista. 

As autoridades, na verdade, queriam o fim do Caldeirão, mas havia um problema: a ligação entre o beato José Lourenço e o padre Cícero. Brigar com o “Padrinho” não valia a pena, em hipótese alguma. Porém, com a morte do sacerdote, aos 90 anos, surgiu a oportunidade tão esperada, uma vez que desde 1923 o testamento do religioso garantia a propriedade do Caldeirão aos padres salesianos. 

Por essa razão, o beato José Lourenço teve de começar a pagar tributos aos novos proprietários pelo usufruto da terra. Segundo José Tavares de Lira, filho e neto de ex-moradores do Caldeirão, seu pai sempre levava uma tropa de burros carregada de gêneros para os salesianos. Contudo, em 1936, o bacharel Raymundo Norões Milfont, representante jurídico dos padres, solicitou reintegração de posse. 

No mesmo ano, a cidade de Fortaleza sediou uma reunião de representantes de seis instituições: diocese do Crato, ordem dos padres salesianos, Liga Eleitoral Católica, polícia política (Deops), polícia militar e governo do Ceará. Os presentes ouviram relatos do capitão José Bezerra (embora o nome seja igual, e ruim tal, não é o comandante do assassinato à traição de Lampião e seu bando), da polícia militar, que, em busca de um pretexto para a invasão, havia espionado a comunidade para ver se ali havia armas. O oficial não as encontrou, mas disse que as forças públicas precisavam agir “com rapidez fulminante, para evitar a possibilidade de uma reação premeditada”, pois havia muita gente no arraial. O massacre começa a ser esboçado

As autoridades temiam a resistência semelhante à de Canudos, onde o exército brasileiro fora seguidas vezes derrotado, até que, em 1897, promoveu o massacre de milhares de camponeses. Alegaram também o risco de o Caldeirão resvalar para as mãos de líderes marxistas, já que no final de 1935 Luís Carlos Prestes tinha comandado a Intentona Comunista, cujo primeiro levante havia ocorrido no Rio Grande do Norte. 

No dia 11 de setembro de 1936, as forças do Estado invadiram o Caldeirão. Coturnos de policiais civis e militares entraram marchando, mas não encontraram o beato José Lourenço, que havia fugido para a floresta da chapada do Araripe, onde ficou escondido até o início de 1938. Lá ele tomou o cuidado de não fixar residência, vivendo de forma nômade em construções de palha improvisadas, alimentando-se de frutas silvestres e, por vezes, de gêneros doados por amigos de fazendas próximas. No dia da invasão porém, o capitão Cordeiro Neto ficou confuso sobre a atitude a tomar diante das mais de 400 casas de taipa. Optou pela devastação: expulsou os moradores, queimou os casebres e entregou parte dos bens ao município do Crato. “A polícia chegou lá e acabou com tudo. Levaram o que havia no armazém, e até as portas da casa do beato”, conta José Lira. 

Homens de confiança de José Lourenço foram presos e conduzidos a Fortaleza. Retornaram ao Crato após 14 dias e encontraram pessoas da comunidade vivendo no pé da serra da Conceição, nas entranhas do Araripe, sob constantes maus-tratos das autoridades, que permaneciam em alerta. No depoimento dado ao pesquisador Régis Lopes, Eleutério Tavares, morador influente do Caldeirão, comentou a ação policial: “ Lá, bateram em pessoas, fizeram gente engolir rosário na ponta da baioneta. Só não fizeram matar mesmo”. O general Eurico Gaspar Dutra apóia os perseguidores

No início de 1937, as autoridades do Ceará receberam denúncias sobre o pessoal de José Lourenço, que após a dissolução da comunidade vivia clandestinamente nas matas da chapada do Araripe. Corriam boatos de que ex-integrantes do Caldeirão atacariam o Crato. Ciente disso, o capitão Bezerra e 11 soldados da polícia de Juazeiro foram até lá para checar as informações e entraram em conflito com um grupo de camponeses. Nesse embate, morreram o capitão e três praças. Do outro lado, foram cinco perdas, entre elas, Severino. 

Após a divulgação daquele conflito, fortes contingentes militares partiram de Fortaleza à caça dos remanescentes do Caldeirão, determinados a vingar a morte do capitão Bezerra. O ministro da Guerra, general Eurico Gaspar Dutra, colocou a força federal à disposição do governo cearense e autorizou o vôo de três aparelhos do Destacamento de Aviação, sob responsabilidade do capitão José Macedo, para auxiliar no reconhecimento da zona e localização dos camponeses. 

Dos aviões, as metralhadoras dispararam, enquanto 200 patrulheiros vasculhavam a chapada de Araripe para concluir a missão. Naquele 11 de maio de 1937, cerca de 700 lavradores foram massacrados. Nenhum soldado morreu. Mesmo depois da “grande investida” militar, policiais continuaram a perseguir, prender, torturar e matar pessoas que se vestissem de preto e portassem rosário – as características dos seguidores do beato. Eu não celebro missa para bandido!

Em 1938, José Lourenço retornou ao sítio Caldeirão e ali permaneceu por dois anos, até ser novamente expulso pelo procurador dos padres salesianos, proprietários da fazenda. Seguiu então para Exu, no lado pernambucano da chapada, onde montou outra comunidade, no sítio União, comprado com os 7 contos de réis recebidos como indenização por uma parte dos bens do Caldeirão. O advogado do beato tentou mover uma ação contra o Estado para recuperar a totalidade das perdas do arraial, todavia o pedido não foi atendido. 

José Lourenço morreu em 12 de fevereiro de 1946 no sítio União, vítima de peste bubônica. Seguidores carregaram o caixão com seu corpo, a pé, de Exu até Juazeiro do Norte, num percurso de 70 quilômetros. Depois da longa e cansativa jornada, o corpo do beato foi velado na casa de Eleutério Tavares. Em seguida, os fiéis solicitaram uma missa a monsenhor Joviniano Barreto, porém o vigário não apenas recusou o pedido, como proibiu a entrada do esquife na capela: “Eu não celebro missa para bandido”, alegou o sacerdote. 

Após serem rejeitados na “casa de Deus”, e debaixo da chuva qua caía em Juazeiro do Norte, os amigos do beato fizeram um sepultamento no cemitério do Socorro, ao lado da igreja homônima. A estudante de pedagogia Ana Izabel Tavares é quem atualmente cuida do jazigo, onde estão até hoje as imagens de santos que tinham sido importadas da Alemanha para a Capela de Santo Inácio de Loyola. Patrimônio

A estrada de terra esburacada dificulta o acesso ao Caldeirão, situado no município do Crato, entre os distritos de Monte Alverne e Dom Quintino. Em 1998 o ex-secretário municipal da Cultura Rosemberg Cariry apresentou projeto com o objetivo de transformar o sítio num grande parque histórico, com museu e anfiteatro para eventos ligados à cultura popular. No mesmo ano, a prefeitura do Crato comprou parte central do terreno onde viveu a irmandade liderada pelo beato José Lourenço e reformou a Capela de Santo Inácio de Loyola, colocando portas novas, pois as originais haviam sido roubadas na invasão policial de 1936. 

Atualmente a única família residente no sítio é a do agricultor Raimundo Batista. Embora não seja remanescente da antiga comunidade, ele sabe que ali havia fartura, ao contrário do que acontece hoje, pois mal consegue garantir a própria subsistência: ”Isto aqui era um Caldeirão vivo, hoje é um Caldeirão morto”, lamenta. O isolamento só é quebrado pelas romarias de setembro ou quando aparecem pesquisadores para examinar as ruínas da fazenda. 

A cruz ao lado da capela, por exemplo, indica o cemitério. Mais adiante fica o “caldeirão” de pedras, onde os filhos de Raimundo aproveitam para nadar e fugir do calor da caatinga. Segundo Arlindo Siebra, o “caldeirão” está passando por um processo de assoreamento, ou seja, perdendo profundidade. Isso indica que mesmo após o Coepa ter ratificado a importância do sítio, em março, ainda faltam medidas de manuntenção. Pouco a pouco os vestígios históricos, como a casa do beato José Lourenço, estão desaparecendo. 

Revista Problemas Brasileiros 
Texto e fotos de João Mauro Araujo 
Adaptação GNT

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