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sábado, 6 de agosto de 2016

O TEATRO DE PAU DOS FERROS, UMA LEMBRANÇA -QUE MEXE- COM A GENTE




Década de 90, emergia o fortalecimento dos movimentos sociais contra a política neoliberal instaurada no Brasil. Era um cenário de muitas lutas contra as “privatarias”, o desrespeito aos trabalhadores e as trabalhadoras do Brasil e falta de apoio as políticas de Reforma Agrária. Época marcada por lutas, entre latifundiários e agricultores, que resultaram em muitos massacres, vitimando muitos trabalhadores.

            Nesse contexto, alguns universitários da província de Pau dos Ferros sentiram a necessidade de resgatar o movimento estudantil no Campus Avaçado “ Profa. Maria Elisa de Albuquerque Maia.” - CAMEAM/UERN.    Dessa forma, movidos pela paixão em arte e cultura, passaram a utilizar a linguagem teatral para abordar e discutir temas sociais e políticos da época, através de oficinas realizadas na própria instituição. Dessas oficinas surgiu o grupo de teatro “Que Mexe” na perspectiva critico-social, com base na filosofia e orientações do “ Teatro do Oprimido” de Augusto Boal. O grupo adotava como estilo o teatro de rua, motivado pelas formações com o ator, diretor e teatrólogo Amir Haddad que defende uma forma mais popular de se fazer teatro.


             A atuação do grupo dentro e fora da universidade era efetiva. Foram produzidas muitas apresentações, uma delas,  “O julgamento da droga”, um texto informativo, crítico e com o tom humorístico que foi apresentada em várias cidades. O financiamento para a produção das peças vinha da generosidade dos professores do CAMEAM e de alguns amigos que faziam algumas doações, a respiração era com aparelhos... A princípio,  os participantes do grupo eram: Conceiçao Bezerra, Joana Alves, Jassira Braz, Rosineide Nascimento, Jairo Campos, Sérgio Varela, Vera Lúcia, Joseane, Neilde, Cleidismara, Magna Carneiro, Luciano Pinheiro, Vandi Mendes, Luciana e Dorinha Souza.  Em seguida, vieram somar aos talentos, Rosa Souza, Francisco Bezerra e o nosso saudoso e querido Israel Vianey que foi escritor, produtor e diretor de vários espetáculos.



            O grupo passou a assumir um estilo voltado mais para o humor envolvendo temas e situações do cotidiano, produzindo três grandes espetáculos: “Humor em três Tempos”; “Que ironia papai” e “As filhas da mãe”. Esse último foi apresentado no Teatro Municipal “Dix-Huit Rosado Maia” na cidade de Mossoró. Várias cidades do RN também receberam os espetáculos. como Alexandria, Agua Nova, Marcelino Vieira etc. Aqui na cidade, o BNB e a AABB foram palco para as peças, assim como as dependências do próprio Campus Universitário. 


Os textos foram escritos por nosso Israel Vianey, eram carregados de humor e de muita classe, pois ele tinha a habilidade de escrever com irreverência, ironia, mas com muita sutileza na forma de fazer graça. Isso é o que podemos chamar de humor inteligente. Muitas de suas frases expressas nas falas das personagens permanecem em nossas mentes, e ás vezes, nos pegamos dizendo: “Se eu fosse escrever um livro, a minha vida dava uma trilogia...”; ou, “...sua pele vai ficar uma seda, com esse tratamento (de beleza) a gente nem morre, meu bem!”; e ainda, “...dívidas, dívidas, você só pensa em dívidas, mamãe!” Eita Vianey que faz falta... 



             O grupo tentou resistir a falta de apoio e incentivo  à arte e à cultura por parte das políticas públicas, mas não conseguiu. Logo, todos tiveram que investir na vida pessoal e profissional e com muito trabalho, foi ficando, cada vez, mais difícil reunir o grupo para produzir e ensaiar os espetáculos.
                                     
                                             

            Hoje, são guardados na memória e recordados com muita saudade os domingos, as noites e madrugadas que o grupo passou junto, trabalhando nas produções dos espetáculos, ensaiando, brincando e, algumas vezes, até se desentendendo, gente é bicho complicado né não?! Mas, no fim, isso faz parte do convívio sadio, criativo e produtivo.



            O -Que Mexe- teve que se mexer por não conseguir sobreviver da arte, hoje existe até reitor de universidade que é ex integrante do grupo, assim como artistas que conseguiram maior expressividade fora de nossa região com participações até em novelas globais. É notável contribuição desses visionários em prol da arte e cultura, para que ambas possam sobrevier ao tempo e a tudo que as oprime. Salve, salve o Teatro de Pau dos Ferros, mesmo sabendo que as cortinas se fecharam e que a ribalta está apagada... 

Por Maria das Dores Alves - Dorinha.

sábado, 25 de junho de 2016

O MULTIARTISTA




Gilvan Fernandes de Lima, o artista mais apurado no meio de todos os artistas apurados. Sensível a todas as linguagens da arte. Nasceu em meados dos anos 50, no mês derradeiro, no quarto dia, o sexto dia de novena... Filho de Dona Isaura da Pensão, ali na Rua de Baixo e seu Tomaz, o do Bar de Tomaz. Fez seus primeiros estudos no Joaquim Correia, mas quando criou asas foi para estudar Psicologia na Universidade Federal da Paraíba, na cidade de João Pessoa. Depois de graduado, voltou a nossa terra e trabalhou no Hospital Regional Dr. Cleodon Carlos de Andrade, na Escola Estadual Tarcísio Maia, além de clínicas em geral. Atualmente Gilvan reside em Natal e trabalha como psicólogo no Centro Estadual de Educação Especial (CEESP). Sempre se destacou como profissional competente, atencioso e humano. Mas passemos às páginas seguintes...

Gilvan, hoje sexagenário, sempre foi filho da arte. Canta divinamente bem, tem CD gravado, e por muitas vezes foi atração da provinciana noite pauferrense nos anos 90 e no início dos anos 2000, sempre com um repertório aguçado: Milton Nascimento, Chico Buarque, Caetano Veloso, Chico César, Gilberto Gil, Ângela Maria, Jessé, Maria Bethânia, Ivan Lins, Ney Matogrosso, mas pera, faça uma pausa aí: NEY MATOGROSSO... É neste artista que Gilvan atinge o êxtase artístico quando faz sua performance interpretando a obra subjetiva e introspectiva deste ícone da música brasileira. Uma ode ao grande Ney. Na foto abaixo, Gilvan pronto para mais uma performance:



Passando para outra página, Gilvan é um artista plástico de primeira grandeza, nas mais variadas técnicas, pintura, grafite etc... Lembra daqueles muros da Secretaria de Educação de Pau dos Ferros, com lindas pinturas, ele era um dos artistas em questão... Lembra dos muros da Escola Estadual 4 de Setembro? Ele também participou. Amante da arte sacra, não deixou barato e pintou, junto a Etelânio Figueiredo e Emanuel Ferreira, o teto da nossa Igreja Matriz nos anos 90, era a imagem da padroeira: Nossa Senhora da Conceição, uma obra memorável, mas que, como muitas coisas em nossa cidade, foi extraviada e ninguém sabe, ninguém viu... Que pena!

Passando para outra página... Gilvan é maquiador profissional e faz de seus traços nas faces variadas, mais uma vertente de excelência de sua verve. Cantores famosos, políticos, artistas globais, todos já passaram pelos toques precisos do seu pincel. Recentemente, os EUA receberam seus serviços, a Cidade de Dallas lhe recebeu por uma temporada. Nas fotos abaixo, Gilvan maquia a atriz global Titina Medeiros e a cantora Khrystal, ex participante do The Voice.


             
             













                                                                                   

Passando para uma das páginas mais esperadas, vem a colagem, eita, a Colagem... A arte da colagem...


Gilvan parece ter inventado um segmento artístico, ele é simplesmente uma referência nessa arte contemporânea, na qual gravuras inofensivas, sem nenhuma utilidade, de revistas e livros descartados, ganham sentido e vida na sua técnica, é aquilo que Manoel de Barros dizia: -O que não serve para nada, serve para a poesia-, serve para a plenitude artística. Exposições em todo país já receberam suas obras e recentemente, com a exposição -Fragmentos da Alma-, na UFRN, recebeu efusivos elogios de professores e autoridades até internacionais do segmento artístico. Foi no último dia 9 de junho, o que já gerou oficinas ministradas por nosso mestre para alunos do curso de Artes da UFRN.


São verdadeiras obras de arte, oriundos do descartável, um tapa na cara da sociedade consumista e produtora de lixo... Nada se perde, nada se cria, tudo se transforma, é a velha máxima que é seguida por nosso grande artista. Aliás, nosso multiartista... 



Assim é Gilvan Fernandes, cantor, pintor, maquiador, humorista (ele faz pocket show), ator, escritor (é um grande poeta intimista), mestre da arte da colagem, psicólogo respeitado e, acima de tudo, um grande ser humano. E aí, você, pauferrense, conhece as variadas artes de nosso mestre? Já foi a alguma exposição dele aqui em nossa cidade? Já ouviu ou presenciou alguma referência a ele nas escolas do município na disciplina de artes? Sabia da existência dele? Conhece a arte da Colagem? Viva! Viva, nossa mestre! Aplaudido e reconhecido no mundo todo, mas anônimo em sua própria terra! Oremos!


Por Manoel Cavalcante

domingo, 29 de maio de 2016

A NOVA ARTE DE PAU DOS FERROS







Toda e qualquer arte que se faça aqui no sertão de dentro, no interior de nosso interior, por si só, já pode ser considerada marginal, a arte, em sua essência, também é marginal, pois sempre está à margem do sistema, à margem das políticas públicas... é, gente, ser artista é ser revolução, revolução, atentem bem... Re-vo-lu-ção.

Pau dos Ferros do Help Som, de Léo Batista, de Raimundo Círio, de Dodó, de Lourdes Almeida, de Gilson de Bafute, do Sub Grave, agora vê com muita alegria chegar Eliano Silva, mais um Silva desse brasil com letra minúscula... Poeta nato, palavras de força e com direção, este Silva não nasceu no seio das famílias oligárquicas, não vem de um berço do centro cidade, não estudou em escolas particulares, tem o cabelo pixaim, a cor negra, o perfil magro, mas tem o verso certeiro e o canto como arma, apenas o canto... Só o canto.

Nasceu e cresceu no bairro mais carente da cidade, no Manoel Deodato, em meio ao descaso urbano e humano, como diz um poeta amigo meu: mora lá onde acaba dinheiro da prefeitura, mas foi no PETI (Programa de Erradicação do Trabalho Infantil), que aprendeu suas primeiras notas de flauta e despertou e despontou para a música, eita, olhe os programas sociais nos dando um artista e um baita artista. Foi guitarrista do Safra 82, banda de rock da cidade, mas desde 2014 faz carreira solo. O menino do Manoel Deodato é um artista de um calibre diferente, desses que têm cara, que têm posição, que militam, um soldado da ideia.

No ano passado, Eliano gravou o Ecdemomania, a mania de fazer traquinagem, a mania de viajar e se aventurar, este nome difícil dá nome a seu trabalho, um álbum autoral, com algumas parcerias... músicas como "Tão devagar", "Dance, morena", já são hits perenes na mente dos jovens da cidade, dos subversivos, dos amantes da boa música. Tem crítica social, tem lirismo exacerbado, tem literatura entranhada em tudo, aliás, a poesia conversando de perto com as músicas, se confundindo, é uma das qualidades que distingue este poeta da periferia dos demais...

Foi tomando dinheiro emprestado, foi fazendo uma vaquinha, foi com ajuda dos amigos, com muita dificuldade, que este álbum conseguiu sair do estúdio e ainda tem gente que diz que a cultura não precisa de intervenção do Estado, que não precisa de secretaria da cultura nem de ministério, não, não precisa, imagina... todo artista tem uma editora e um estúdio no muro de sua casa e pode produzir com sua própria verba, mas o CD nasceu, veio, está aqui gritando e como ele mesmo diz:

tenho um coração
só não tem dinheiro
mas isso não é problema
pra quem tem o mundo inteiro.

E nessa quinta, 02 de junho, Eliano irá lançar seu trabalho na Pizzaria Água na Boca, à noite, às 20h, contando com a presença de vocês tudim, até porque "a felicidade é uma ditadura"... Viva!

                                    

O CD está ótimo, lindo, com essência, com ineditismo (o mais difícil), com identidade... E comprem, adquiram, é barato demais, dez reados, o artista quer que seu trabalho se espalhe, quer que vire gás e a arte não é brincadeira, é coisa séria...! Salve a nova arte de Pau dos Ferros, salve o grande Eliano, da linhagem de Miró, de Carolina Jesus e tantos outros, mas sem comparar com ninguém, ele é ele e com muita altivez. 

                                    

Boa sorte ao novo bardo pauferrense, saudações culturais e ideológicas! Viva!

Por Manoel Cavalcante 


sexta-feira, 22 de abril de 2016

O NOME DA MINHA CIDADE É PAU DOS FERROS


-Pau dos Ferros? -Sim, Pau dos Ferros. Tenho bussoluta certeza, e bussoluta vem de bússola, que essa pergunta inicial em sinal de estranheza ante a revelação de nossa terra natal, é um episódio frequente quando os irmãos PAUFERRENSES saem para outras regiões do país e até para fora do Brasil, no entanto, quando explicamos a origem do nome, todos fazem reverência à originalidade. É como diz um poeta amigo meu: -Pode até existir um mais bonito, mas igual num tem não. 

Na contramão da identidade de nossa cidade ao menos no nome, nosso Estado é um seio farto e férfil de autoafirmação pessoal, personificação das ações e disseminação das oligarquias, através da invasão de identidade. Temos 167 municípios e destes, cerca de 25 %, um quarto, tem nomes de pessoas, direta ou indiretamente, 34 têm nome próprio como Rafael Fernandes, Marcelino Vieira ou sobrenome próprio como Martins. Outros trazem a alcunha hierárquica como ousadia: Tenente Laurentino Cruz, Senador Elói de Souza e outras 6, trazem o nome indiretamente, o que é pior, pois dá a ideia de posse, que aquela cidade, aquela história, é de uma única pessoa ou de uma única família: Timbaúba dos Batistas, Olho Dágua do Borges, Santana do Matos etc. Homenagens são justas e sabemos da importância de grandes líderes, todavia, por mais perspicaz que seja a pessoa, o ser humano, a influência daquela família, não é de bom grado, colocá-los no topo do ranking, como os maiorais e olhe que muitas vezes nem são. Reverenciá-los de outra forma seria mais coerente. 

Acompanhemos os nomes abaixo:

1. João Câmara
2. Nísia Floresta
3. Afonso Bezerra
4. Almino Afonso
5. Frutuoso Gomes
6. Pedro Velho
7. Ielmo Marinho
8. Governador Dix-Sept Rosado
9. Tenente Ananias
10. Luís Gomes
11. Antônio Martins
12. Pedro Avelino
13. Doutor Severiano
14. José da Penha
15. Felipe Guerra
16. Tenente Laurentino Cruz
17. Coronel Ezequiel
18. Bento Fernandes
19. Martins
20. Coronel João Pessoa
21. Rodolfo Fernandes
22. Messias Targino
23. Senador Georgino Avelino
24. Lucrécia
25. Ruy Barbosa
26. Rafael Godeiro
27. Fernando Pedrosa
28. Francisco Dantas
29. João Dias
30. Rafael Fernandes
31. Senador Eloi de Souza
32. Severiano Melo
33. Major Sales
34. Alexandria

E ainda:

1. Carnaúba dos Dantas
2. Timbaúba dos Batistas
3. Olho Dágua do Borges
4. Alto do Rogrigues
5. Santana do Matos
6. Serrinha dos Pintos

Contudo, nem tudo está perdido, três cidades do Rio Grande do Norte deixaram as alcunhas pessoais e hoje possuem seus novos-antigos nomes com auteti(cidade) e originalidade. Ei-las:

Boa Saúde deixou de ser Januário Cicco (médico) que agora é apenas uma maternidade, por sinal muito conceituada; 

Serra Caiada deixou de ser Presidente Juscelino que, por sua vez, num sabe nem sabia nem onde ficava Serra Caiada. A população escolheu num plebiscito em 2012 com 98,53% dos votos, a favor da troca, ou seja, o nobre Juscelino Kubitschek não recebeu um real de cabimento dos serracaiadenses;

Campo Grande, deixou de ser Augusto Severo após uma manifestação de menosprezo de um familiar do referido patrono, explicitada numa solenidade em Natal, dizendo que era uma cidade minoritária, muito longe e outras asneiras... Um pesquisador da cidade estava presente e fez um abaixo assinado na cidade, que voltou a ser Campo Grande em 1991.

Certa feita, um amigo me confidenciou ser bisneto de Coronel João Pessoa, e mesmo assim, preferia que o nome da cidade fosse Baixio de Nazaré, haja vista aquela pequenita cidade estar localizada em um grande baixio. Belo nome, né não?!

Por falar em belo, Caiçara do Rio do Vento, cidade perto de nossa capital, já ganhou um concurso, certa vez, como um dos nomes de cidades mais belos do país. E com justiça.

Nossa própria Pau dos Ferros, ainda teve como sugestão Vila Cristina, mas não vingou. A cidade de Encanto, antes de emancipada, era Joaquim Correia, um mecenas da educação e grande líder político, hoje é nome do centro cultural em nossa cidade, que inclusive foi construído por ele. Mais justo né não?!

Não obstante a isso, desperdiçamos vários nomes justos, intrínsecos de cada região, de cada lugar em detrimento de nomes pessoais... Que pena.

Felipe Guerra, cidade de belezas naturais, deixou de ser Pedra da Abelha... Algum outro lugar teria uma pedra com o formato de uma abelha? Olha só quão bonitas são as paisagens de Pedra de Abelha:


Antônio Martins antes era Boa Esperança, bonito e singelo, concorda? Alexandria era chamada de Barriguda, em homenagem a Serra da Barriguda, cartão postal do município... Nome que além de exaltar a própria cidade, deixaria todo mundo de bucho cheio, nera? Olha a Barriguda aí:


Rafael Godeiro atendia por Várzea da Caatinga, lindo demais... Rafael Fernandes por Varzinha, Frutuoso Gomes por Mombaça... Rodolfo Fernandes já foi Serrote dos Gatos, Tenente Ananias já foi Água Marinha, Major Sales já foi Cavas, Doutor Severiano: Mundo Novo, Francisco Dantas era Riacho Tesoura, quer nome mais afiado? São infindos os exemplos.

São nomes de políticos, médicos, autoridades da justiça e da polícia que imperam, apenas três nomes de mulheres ou que fazem reverência a ela: Nísia Floresta, Alexandria e Lucrécia. É a velha relação do maior contra o menor, da sociedade patriarcal. Bonito também seria: Vaqueiro Zé do Gado, Agricultor Antônio das Umburanas... Mas, parece sonho que os trabalhadores da terra e das lutas naturais tenham essa honraria.

Ainda existem as cidades com nome de santos da igreja católica, o que desfaz a laicidade do estado, no caso do município, mas nisso nem vamos tocar...

Contudo, respiramos quando vemos nomes em tupi-guarani como Assu, Itaú, Canguaretama, Ipanguaçu, Parnamirim e outros mais... Temos essa vantagem.

Por fim, os pauferrenses só têm a comemorar a identidade do nome, a originalidade do gentílico, lutando sempre em favor da manutenção e valorização da cultura de raiz. Oremos!

Por Manoel Cavalcante (que é contra a existência do povo cavalcantense).







domingo, 17 de abril de 2016

O ATAQUE DOS CANGACEIROS DE LAMPIÃO A ANTÔNIO MARTINS – RN

4-Lampião gostava de mostrar-se um homeme inteligente perante as câmeras


E o Exemplo De Uma Cidade Potiguar na Preservação de Um Dia Intenso

Autor – Rostand Medeiros
1927 foi um ano bem intenso na história do Rio Grande do Norte. Enquanto os sobrevoos de aeronaves vindas da Itália, Portugal, Estados Unidos e França faziam com que a capital potiguar marcasse presença em jornais de circulação mundial com, o nosso sertão era “visitado” pelo maior bandoleiro da história do Brasil, o cangaceiro pernambucano Virgulino Ferreira da Silva, o famoso Lampião.
Seu ataque às terras potiguares, junto com um numeroso e feroz bando de cangaceiros, aconteceu em junho daquele ano e tinha como principal objetivo a progressista cidade de Mossoró. Mas ao longo do trajeto algumas comunidades e muitas propriedades foram invadidas, ultrajadas, roubadas e saqueadas. Em um imemoriável frenesi de medo, terror, gritos, sangue e mortes.
O ataque de Lampião ao Rio Grande do Norte jamais foi esquecido nestas comunidades e em alguns destes locais existe uma luta muito interessante e louvável para preservar a memória daqueles dias estranhos e intensos.
Um destes locais é a cidade de Antônio Martins.
A Chegada dos Celerados
Em 2010 eu percorri pela primeira vez o caminho de Lampião no Rio Grande do Norte, passando pelos territórios de dezenove municípios potiguares, como parte de uma pesquisa para o SEBRAE-RN[1].
Cidade de Antonio Martins


Quando estive em Antônio Martins eu conheci e recebi o apoio do escritor Chagas Cristóvão, que na época exercia o cargo de Secretário Municipal de Turismo e Cultura daquela cidade.
Competente pesquisador da história da sua comunidade, Cristóvão comentou que na época da invasão dos cangaceiros a atual cidade de Antônio Martins tinha a denominação de Boa Esperança. Era então uma pequena concentração de casas, onde viviam cerca de 350 a 400 habitantes, sendo parte do território da cidade serrana de Martins[2].
Em 11 de junho de 1927, dia da chegada do bando de cangaceiros a localidade, coincidiu com as celebrações da festa do padroeiro local, Santo Antônio.
De certa maneira esta situação de comemoração, novenas e alegria do povo do lugarejo foi muito útil para o grupo de celerados, pois pegou a todos na comunidade bastante desprevenidos, sendo a pequena urbe rapidamente ocupada. Aquela localidade era o primeiro núcleo urbano invadido pelo bando de cangaceiros de Lampião no Rio Grande do Norte.
                                           
                                                            Justino Ferreira de Souza, fundador do povoado de Boa Esperança
Naquele mesmo 11 de junho, o povo de Boa Esperança aguardava a chegada de uma banda de música da cidade paraibana de Catolé do Rocha. Mas por atraso da saída destes músicos da cidade fronteiriça, não ouve o encontro da banda musical com os cangaceiros. Para Cristóvão esta também é outra das razões para a população da cidade ter sido pega totalmente de surpresa quando da entrada do bando. Vale ressaltar que durante a entrada dos bandidos na vila, um deles fazia a função de corneteiro, tocando um destes instrumentos que havia sido capturado dos policiais batidos no combate da Caiçara[3].
Neste período o fundador do lugar e líder político era Justino Ferreira de Souza. Ele foi avisado da chegada do grupo, mas diante do fato consumado decidiu esperar e ver o que acontecia.
Logo o bando adentra a rua principal. Ao perceberem quem eram os cavaleiros o pânico se instalou. Pessoas correram para todo lado. Os cangaceiros atiravam para o alto, gritavam, urravam, batiam e galopavam invadindo e saqueando as casas do lugarejo.
Lampião estava particularmente raivoso. Entre as sandices cometidas em Boa Esperança temos o suplício de Vicente Teixeira de Lira.
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     Aqui vemos Vicente Teixeira de Lira, que escapou por milagre de morrer nas garras de Lampião e dos seus homens.
O caso começou quando Lira deu uma resposta que o chefe cangaceiro pernambucano considerou insolente e foi “convocado” por Lampião. O humilde potiguar foi então obrigado a seguir à frente do bando, segurando na correia da alimária de Lampião. Em dado momento Lira escorregou no chão de terra e o cavalo do chefe dos bandidos quase lhe colocou no chão. Foi o que bastou para o pobre aldeão levar uma extensa cutilada de punhal. Para piorar sua situação, em frente à igreja de Santo Antônio, outros bandoleiros fizeram pouco caso de sua má sorte e o obrigaram a beber cachaça. Ele quase morreu.
Entre os locais de comércio que foram atacados estava a mercearia e a casa de Francisco Justino, onde os homens armados se abasteceram de vários gêneros e beberam muita cachaça. Com muita conversa, jeito, extremo tato, este pequeno negociante conseguiu que Lampião demovesse os seus seguidores de continuarem na sinistra depredação.
Alguns reféns anteriormente capturados pelos cangaceiros na passagem por propriedades que ficavam localizadas antes desta comunidade conseguiram fugir em meio a toda confusão reinante.
Na vila não faltaram ameaças, espancamentos e roubos de produtos em casas comerciais.
Uma Novaes no Rio Grande
Outro caso que ficou famoso foi no momento em que Sabino, o braço direito de Lampião na empreitada por terras potiguares, saqueava a loja e a residência de Augusto Nunes de Aquino. Sabino se preparava para levar a mulher do comerciante, Dona Rosina Novaes, como refém.
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Dona Rosina Novaes, mulher do comerciante Augusto Nunes de Aquino. O sobrenome desta pernambucana do Pajeú fez Lampião diminuir o ímpeto do ataque de seu bando a pequena vila.
No momento de ser colocada em um cavalo e seguir com a turba encourada, Dona Rosina desabafou com o perigoso Sabino, comentando detalhes de sua procedência e a origem do seu nome de família.  Sabino, ao escutar o relato da mulher, chamou o chefe na mesma hora.
Lampião descobriu, naquele longínquo lugarejo potiguar, estar diante de uma parenta de Elias e Emiliano Novaes, da cidade de Floresta, na época conhecida como Floresta do Navio, na mesma região do Pajeú. Emiliano Novaes era comerciante, membro de uma proeminente família, tido como amigo e coiteiro de Lampião. Consta que chegou a cavalgar de arma na mão ao lado de cangaceiros[4].
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Para muitos habitantes da região, a situação na vila de Boa Esperança durante a invasão do bando só não foi mais grave devido a Dona Rosina Novaes. Pelo fato dela possuir laços familiares com pessoas que Lampião respeitava e temia em Pernambuco, fez com que o ímpeto destrutivo do chefe em relação ao lugar fosse claramente abrandado. 
Lampião era muito valente, mas era antes de tudo inteligente. Evidentemente ele percebeu que quando retornasse para Pernambuco trazendo consigo a responsabilidade por algo negativo ocorrido a Dona Rosina Novaes, a temida e glorificada capacidade vingativa da família Novaes se faria sentir contra ele e seu bando. O melhor era deixar aquela mulher em paz.
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                                                        O comerciante Augusto Nunes de Aquino
Diante da nova situação o chefe refreou os ímpetos violentos tanto dele, quanto do seu bando. Lampião chega ao ponto de se desculpar com Dona Rosina pelo ocorrido. Alegava desconhecer ser o lugar habitado por uma legítima representante do temido clã dos Novaes[5].
Desfeito o “mal entendido”, para Lampião o clima ficou mais tranquilo e ele chega a solicitar que Dona Rosina prepare algo para eles jantarem. Mais adiante, tranquilamente sentado na mesa, mais para se justificar diante dos seus atos e do seu bando, o cangaceiro comenta “o porquê de estar nesta vida” – Comenta aos presentes estar naquela vida bandida como fruto das perseguições que sofria, destilou seu ódio contra a polícia e outras razões.
Diante da esperada respeitabilidade que Lampião passou a demonstrar por Dona Rosina e seu marido Augusto Nunes de Aquino, este último assume o papel de protetor dos habitantes de Boa Esperança.
Por volta das sete e meia da noite, o chefe prepara seu bando e seguem viagem.
Cangaceiros Rezando na Igreja de Santo Antônio
Da época do ataque de Lampião a Boa Esperança, poucos são os locais que se encontram preservados atualmente.
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A primeira residência do atual município de Antônio Martins.
Um destes pontos invadidos pelos membros do bando de Lampião é uma interessante residência localizada na Rua Aureliano Saraiva, número 109. Construída em 1898, esta casa pertenceu a Justino Ferreira de Souza e na época servia como uma pousada para os viajantes que trafegavam na região. A casa se mantém original, sendo continuamente habitada e considerada a residência mais antiga e precursora da povoação de Boa Esperança.
Mário de Andrade e Luís da Câmara Cascudo no sertão, 1929
O potiguar Luís da Câmara Cascudo e o paulista Mário de Andrade em foto no sertão nordestino.
Ainda sobre este local, segundo Chagas Cristóvão, um ano e sete meses depois da passagem do bando pelo lugar, no dia 19 de fevereiro de 1929, ali chegava um carro transportando quatro homens que visitavam a região sertaneja. Entre estes estavam o folclorista potiguar Luís da Câmara Cascudo e o poeta e escritor paulista Mário de Andrade.
A passagem de um dos criadores do movimento modernista no Brasil pela Região Oeste Potiguar tinha como objetivo a observação dos costumes, das manifestações culturais e as características do povo do sertão nordestino. Mesmo passado quase dois anos do ataque de Lampião, chamou atenção do escritor paulista as marcas do medo da população de Boa Esperança diante da terrível “visita” de Lampião[6].
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Igreja de Santo Antônio.
Vizinho a esta antiga habitação se encontrava a igreja de Santo Antônio. Construída 1901, este pequeno templo religioso era no dia 11 de junho de 1927 o principal local de realização dos festejos relativo ao padroeiro local.
Até hoje nesta festa religiosa é tradicional a realização das chamadas “trezenas”, onde durante treze dias anteriores ao dia 13 de junho, a data consagrada a Santo Antônio, são realizadas missas, cantos de benditos, encontros e outras participações da comunidade neste templo católico.
Segundo Chagas Cristóvão havia algumas pessoas da comunidade reunidas no local quando os cangaceiros chegaram a Boa Esperança. Logo alguns cangaceiros ficaram diante do templo e, visivelmente embriagados, proibiram a saída dos fiéis do local. De dentro da igrejinha essas pessoas assistiram horrorizados os suplícios do jovem Vicente Lira, que apunhalado e sangrando abundantemente, era obrigado a engolir talagadas de cachaça.
Cristóvão comentou ainda que existe uma versão onde diante da igreja aberta, outros cangaceiros adentraram respeitosamente o local, se ajoelharam, rezaram, se benzeram e depois saíram sem perturbar os atônitos presentes[7]. 
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Velha casa do extinto sítio Alto da Ema, atualmente um bairro da cidade de Antônio Martins.
Na saída da zona urbana do atual município de Antônio Martins, temos a velha casa do sítio Alto da Ema, que então pertencia a um senhor conhecido como “Coqueiro” e hoje dá nome a um dos bairros da cidade. Neste ponto os comandados de Lampião procuraram adentrar residência assobradada, que se encontrava desocupado devido à fuga dos seus moradores. Eles utilizaram as coronhas dos seus fuzis na tentativa de derrubar a porta. Entretanto, fosse pela pressa em seguir adiante, ou pelo excesso de álcool, ou outra razão desconhecida, os cangaceiros não alcançaram seu intento e seguiram adiante no seu caminho de saque e terror. 
A Memória da Passagem de Lampião
Em 2007, durante a passagem dos oitenta anos do ataque de Lampião ao Rio Grande do Norte, a prefeitura local decidiu promover toda uma programação destinada a marcar este momento dentro da comunidade. Em uma bela praça de eventos localizada no centro da cidade foi fixada uma placa de bronze com a relação dos trinta e um habitantes da antiga vila de Boa Esperança que sofreram violências ao longo da passagem do bando.
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Placa comemorativa ao 80º aniversário da passagem de Lampião por Antônio Martins. Na placa de bronze estão inscritos os nomes de 31 pessoas que foram atacadas em 11 de junho de 1927.
Aos descendentes dos que foram atacados pelos cangaceiros, a Prefeitura Municipal de Antônio Martins outorgou uma insígnia honorífica, personalizada, no formato de uma pequena placa de acrílico, , alusiva aos fatos ocorridos. Esta condecoração foi entregue a alguns dos descendentes em praça pública, no dia 11 de junho de 2007.
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Insígnia entregue em 11 de junho de 2007, aos descendentes dos que estavam na povoação de Boa Esperança e sofreram com o ataque do bando de Lampião.
Igualmente nesta mesma data, passava pela cidade de Antônio Martins a cavalgada comemorativa aos 80 anos do ataque a Mossoró, onde foi repetido o mesmo ato simbólico ocorrido na zona rural de Marcelino Vieira, com o descerramento de outra placa comemorativa em relação à resistência ocorrida em Mossoró, quando da passagem do bando pelo Rio Grande do Norte.
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Placa da cavalgada dos 80 anos da resistência ao bando de Lampião em Mossoró, fixada em Antônio Martins.
Segundo Chagas Cristóvão a prefeitura de Antônio Martins desenvolveu um projeto visando a criação de um museu destinado a apresentar os principais aspectos da história municipal, onde seria inserido a história do ataque do bando de lampião aquela comunidade.
O museu estaria direcionado para um público local e regional, tendo como outros pontos focais a valorização das raízes locais e o desenvolvimento do turismo regional. Pessoalmente não tive mais informações se este museu foi inaugurado.
Mas louvo todas as iniciativas ali realizadas em relação a memória destes acontecimentos.
NOTAS

[1] Sobre este trabalho e o caminho de Lampião no Rio Grande do Norte veja – https://tokdehistoria.com.br/2015/04/11/pelos-caminhos-de-lampiao/
[2] O número da população de Boa Esperança na década de 1920 aqui apresentado é uma dedução feita a partir do texto existente sobre a história desta cidade existente no sitehttp://www.wikipédia.org(https://pt.wikipedia.org/wiki/Ant%C3%B4nio_Martins), onde lemos que em 1920 havia “81 casas, com 327 moradores já estavam permanentes em Antônio Martins”. Esse número mostra que houve um aumento exponencial na população local, pois vinte e dois anos antes do ataque de Lampião a Boa Esperança, temos a informação que moravam neste lugar cerca de sessenta “fogos”, ou pessoas. Informação contida na mensagem do governador potiguar Augusto Tavares de Lyra, lida na Assembleia Legislativa em 1905 e publicada no ano seguinte, em um interessante detalhamento sobre o município de Martins, Ver “Mensagens lidas perante o Congresso Legislativo do Estado do Rio Grande do Norte”. Tipografia A República. Pág. 116, Natal-RN, 1906. Atualmente, utilizando as modernas rodovias BR-226 e RN-117, a distância entre Antônio Martins e Martins é de uns 35 quilômetros.
[5] Não é muito difícil na região do Oeste Potiguar encontrar inúmeras referências de famílias cujos antepassados eram provenientes do sertão do Pajeú, ou de outras áreas do sertão Pernambuco. Acreditamos que esse processo tem haver com o trânsito de pessoas e mercadorias, que seguiam principalmente em direção a Mossoró, em comboios de cargas transportados por mulas e jegues.
[6] O resultado desta empreitada sertaneja subsidiaria Mário de Andrade a escrever a obra “O turista aprendiz”.
[7] Durante todo nosso percurso pesquisando a passagem do bando de Lampião no Rio Grande do Norte em 2010 e em três outras viagens por este caminho em 2012, 2014 e 2015, esta foi a única informação que consegui sobre a presença de que alguns cangaceiros do bando teriam adentrado um templo católico com o intuito de rezar.

Por Rostand Medeiros