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quinta-feira, 27 de março de 2014

DA SÉRIE: CURIOSIDADES SOBRE AS "TRÊS MARIAS DA BARRAGEM" - A VIDA ADULTA (PARTE I)




Da esquerda para a direita: Lilita, Antônia e Helena – As “Três Marias da Barragem”. Fonte: Arquivo pessoal de Ene Moreira Pinheiro. 

Já adultas, a família – mãe, pai, irmãos e as “Três Marias” – morou um tempo no Sítio Barragem, município de Pau dos Ferros/RN, passando antes por outras zonas rurais, como o Sítio Maniçoba, também município de Pau dos Ferros/RN. Ao residirem no Sítio Barragem, a população pauferrense passou a tomar conhecimento sobre a existência destas três mulheres, pois marcavam presença nas ruas da cidade durante as noites de sexta-feira, sempre com seus rostos cobertos por um lençol ou toalha, pedindo mantimentos à alguns moradores da cidade e retornando à zona rural antes do nascer do sol. Após a morte do senhor Raimundo de Souza Nascimento, mais conhecido por Raimundo Palheta, pai das “Três Marias”, a família passou a residir no Sítio Alencar, município de Pau dos Ferros.
Segundo os relatos de uma moradora e grande conhecedora da vida destas três mulheres, Ene Moreira Pinheiro[1], durante certo tempo, as irmãs pararam de freqüentar a cidade e, de maneira surpreendente, para aqueles que imaginavam que elas haviam morrido, Maria da Conceição Nascimento, mais conhecida por Lilita, tornou a caminhar na cidade durante a noite. Certa vez, conta Ene Pinheiro, Lilita apareceu sozinha:

Ela ficava no escuro, sentada na calçada [...] aí eu ia, pegava um copo de leite e ia a procura dela; ai eu chegava lá e ela com a cara coberta, ai eu dizia “pegue mulher o copo de leite” e ela dizia “deixe ai”, ai eu deixava. Ai começou essa rotina, uma vez por semana.[2]

Lilita, por sentir-se segura e à vontade ao falar com Ene, devido ao contato semanal, confessou-lhe que estava sofrendo com muitas dores:

Ela se aproximou e disse “mulher, eu to tão doente”, isso ela com uma barriga bem grande, ai eu perguntei se era um menino, se ela tava grávida, mas ela dizia “não, né menino não, eu tô muito doente”, ai eu disse “pois venha amanhã de dia que eu levo você no médico”, mas eu esperei e ela não veio.[3]

Ou seja, apesar dar dores, Lilita não abandonou seu costume de ir à cidade apenas durante a noite. Então, na semana seguinte, ela retornou à casa de Ene, que a levou ao hospital, onde foi diagnosticado que ela tinha um mioma e precisava se submeter a uma cirurgia, processo este que necessitava de exames prévios:

Eu disse pra ela que ela ia ter que fazer uns exames e precisava ficar na cidade naquela noite, que dormiria na minha casa. Ai eu fui, marquei os exames no laboratório, mas ela disse que não ia ficar, mas a vontade de ficar boa era muito grande, acho que ela sentia muita dor e findou dizendo que ficava; ai eu disse “pois você vai dormir aqui em casa”, ai ela disse “não, eu fico aqui no muro”. Não entrou em casa de jeito nenhum [...] ela também não dormiu nessa noite, não![4]

Este comportamento arredio e de exclusão caracteriza ações comportamentais tidas como marginalizadas, conceito explorado por Michel Foucault [5] ao descrever estes seres enquanto “infames”, excluídos, discriminados, diferentes em relação padrão vigente da sociedade, que vivem à margem, tanto no sentido espacial, de lugar habitacional, tendo em vista que sempre moraram em locais distantes do centro da cidade, ou seja, longe do foco das praticas cotidianas vigentes, o que compreende a zona rural e/ou à bairros periféricos; quanto fora do convívio social pauferrense, fugindo das regras comportamentais impostas pela maioria e das relações sociais cotidianas:

Todas essas vidas destinadas a passar por baixo de  qualquer discurso e a desaparecer sem nunca terem sido faladas só puderam deixar rastros – breves, incisivos, com freqüência enigmáticos – a partir do momento de seu contato instantâneo com o  poder. De modo que é, sem dúvida, para sempre impossível recuperá-las nelas próprias, taiscomo podiam ser “em estado livre”; só podemos balizá-las tomadas nas declamações, nas parcialidades táticas, nas mentiras imperativas supostas nos jogos de poder e nas relações com ele. [6]

Com o resultado dos exames, diagnosticou-se uma anemia muito forte em Lilita, impedindo-a de retirar o mioma, pois antes ela deveria ser internada para tomar algumas bolsas de sangue e, só assim, ter condições de entrar no processo cirúrgico, realizado pelo Dr. Etelânio Figueiredo.
Ao internar Lilita, foi necessário que Ene providenciasse algumas camisolas pretas, pois esta era a única cor que as “Três Marias” usavam. Neste sentido, já é possível fazer uma comparação entre a infância/adolescência destas irmãs e a vida adulta, pois um costume havia se modificado: quando crianças/adolescentes, as “Três Marias” gostavam de usar roupas espalhafatosas, com muitas cores e estampas, porém, talvez como uma forma de luto à morte do pai, ela haviam passado a usar apenas preto, tanto nas roupas, quanto nas sandálias e isso perdurou até após a morte da mãe delas, a senhora Celcina Nonato Costa, que faleceu em meados de 2005/2006, logo após a cirurgia de Lilita:

A mãe delas estava doente na casa de um tio, então, quando Lilita saiu do hospital, eu pedi para ela ficar na casa desse tio, porque a mãe já estava lá, ia ter um convívio melhor [...] Pois quando ela passou uns quatro dias na casa do tio dela, a mãe dela piorou... sei que quando procuraram ela, ela havia fugido, cirurgiada [...] mas a mãe dela disse que ela tinha ido pra casa, tinha quase certeza. E coincidiu: ela saiu de casa de manhã, quando foi de noite a mãe dela morreu. [7]


Nota-se, nesse sentido, que excluir-se da sociedade ou até do convívio de pessoas conhecidas não é apenas uma maneira que elas desenvolveram de viver suas vidas, mas de introspecção, de reclusão por medo de encarar certas situações complexas, como foi a morte da mãe, mais um motivo para que as “Três Marias da Barragem” sumissem por um bom tempo das ruas noturnas de Pau dos Ferros.

Vanêssa Freitas




[1] PINHEIRO, Ene Moreira. Entrevista concedida a autora. Encanto/RN, 8 de jul. de 2013.
[2] PINHEIRO, Ene Moreira. Entrevista concedida a autora. Encanto/RN, 8 de jul. de 2013.
[3] PINHEIRO, Ene Moreira. Entrevista concedida a autora. Encanto/RN, 8 de jul. de 2013.
[4] PINHEIRO, Ene Moreira. Entrevista concedida a autora. Encanto/RN, 8 de jul. de 2013.
[5] FOUCAULT, Michel. A vida dos homens infames. In: ______. O que é um autor? Lisboa: Presença, 1994.
[6] FOUCAULT, Michel. A vida dos homens infames. In: ______. O que é um autor? Lisboa: Presença, 1994.
[7] PINHEIRO, Ene Moreira. Entrevista concedida a autora. Encanto/RN, 8 de jul. de 2013.  

2 comentários:

  1. Estou adorando ler a história das "Três Marias da barragem", eu tinha tanto medo delas. Excelente trabalho Vanessa. Parabéns.

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